Agendar consulta
← Blog

Artigo · Catarata

Recuperação da cirurgia de catarata: o que muda em cada semana

Dra. Luiza Mello · Oftalmologista·CRM-DF 24734

A cirurgia de catarata dura poucos minutos e você vai para casa no mesmo dia. Depois vem a pergunta: a recuperação leva quantos dias?

Depende do que você quer voltar a fazer. Dirigir, cozinhar, treinar e trocar os óculos têm prazos diferentes. O mais longo é o grau estabilizar, que leva de quatro a seis semanas.

Abaixo está o calendário que eu passo no consultório, com a fonte de cada orientação.

As primeiras 48 horas

A cirurgia dura poucos minutos e o paciente vai para casa no mesmo dia. A visão costuma estar embaçada e a luz incomoda — isso é esperado e não significa que algo deu errado. O olho está inflamado por ter sido operado, e a córnea leva algumas horas para desinchar.

Nesse período eu peço duas coisas: não abaixar a cabeça abaixo da linha da cintura e não esfregar o olho. Vale entender o porquê, porque é o mesmo motivo por trás de quase todas as restrições desta primeira fase.

A facoemulsificação é feita por uma incisão de cerca de dois milímetros que fecha sozinha, sem pontos. O corte é feito em túnel, e é isso que o torna uma espécie de válvula: a pressão de dentro do olho encosta uma parede do túnel na outra e mantém a incisão vedada. Enquanto essa pressão fica estável, a vedação se sustenta sozinha.

O que atrapalha é a variação brusca. Abaixar a cabeça, fazer força ou levantar peso faz a pressão subir de repente sobre uma ferida que ainda não cicatrizou. Se a vedação ceder nesse pico, o olho perde líquido e a pressão despenca — e é com a pressão baixa e a incisão frouxa que líquido da superfície pode ser puxado para dentro do olho. É essa a via de contaminação que a gente quer evitar. Esfregar o olho chega ao mesmo lugar por caminho mecânico: força direta sobre uma incisão que ainda está selando.

Banho pode no dia seguinte, desde que o jato não bata direto no olho.

A primeira semana

É quando a maioria percebe a mudança. A visão melhora dia a dia, as cores voltam a parecer mais vivas e muita gente estranha o quanto o mundo estava amarelado antes. Ainda assim, o grau não está definido — o olho continua cicatrizando.

Caminhada e exercício leve eu libero já no dia seguinte. Para pedalar, correr, jogar tênis ou golfe e retomar a atividade sexual, eu peço de 7 a 10 dias. Piscina e mar, só depois de duas semanas — água parada e areia carregam contaminação, e o olho ainda está selando.

Quando posso voltar a dirigir?

Dirigir depende de a sua acuidade visual atender ao exigido para a habilitação. Muita gente está apta já na primeira semana. Quem operou um olho só pode levar mais tempo, porque a diferença de grau entre os dois olhos atrapalha a noção de profundidade.

Eu confiro na consulta de retorno e digo. Até lá, não dirija.

Posso cozinhar?

Pode, desde o primeiro dia. O que eu peço é atenção a três situações específicas da cozinha, cada uma por um motivo diferente.

Abaixar para pegar panela em armário baixo ou abrir o forno na altura do joelho repete exatamente o problema da pressão que expliquei acima. Não é o forno em si: é a posição da cabeça. Peça para alguém pegar o que está embaixo, ou agache dobrando os joelhos e mantendo a cabeça erguida.

O calor e o vapor pesam por outra razão. Vapor quente na cara faz o olho lacrimejar e dá vontade de esfregar — e esfregar é o risco de verdade, não a temperatura. Some a isso que o olho operado fica mais seco por causa dos colírios, o que aumenta o incômodo. Abrir a tampa de uma panela de pressão ou encarar o forno aberto de perto são as duas situações que eu evitaria na primeira semana.

Fritura junta as duas coisas e acrescenta o respingo. Um respingo de óleo num olho recém-operado exige atendimento imediato. Deixe para depois da primeira semana ou peça ajuda.

E lavar o cabelo?

Lavar o cabelo tem dois problemas ao mesmo tempo, e os dois têm solução.

O primeiro é a posição. Lavar inclinado para a frente, sobre a pia ou no box olhando para o ralo, deixa a cabeça abaixo do peito — de novo a pressão subindo contra uma incisão sem pontos. O segundo é o xampu. Espuma e água escorrendo para dentro do olho irritam a superfície e, na primeira semana, qualquer coisa que entra no olho é uma via de contaminação enquanto a incisão termina de fechar.

A solução resolve os dois de uma vez: lavar inclinando a cabeça para trás, como no salão, com alguém ajudando ou com o chuveirinho. A água corre para longe do rosto e a cabeça fica acima do peito. Nos primeiros dias, isso é o suficiente.

Posso beber?

Não existe uma proibição oftalmológica ao consumo moderado de álcool depois da cirurgia de catarata. O olho operado não reage ao álcool de um jeito particular. Mas existem três motivos concretos para segurar nos primeiros dias.

No dia da cirurgia, não. Se você recebeu sedação, o álcool soma efeito com o que ainda está circulando. Esse é o único ponto em que eu sou categórica.

Os colírios têm horário. O esquema pós-operatório inclui antibiótico e anti-inflamatório em intervalos fixos por cerca de quatro semanas, e a inflamação controlada é o que define o resultado. Uma noite que atrapalha o sono costuma atrapalhar a dose da manhã seguinte, e é essa falha que me preocupa — não a taça.

Álcool desidrata. O olho recém-operado já está mais seco pelo próprio procedimento e pelos colírios. Beber acentua a secura, e olho seco arde e coça. Você já sabe onde isso termina: na vontade de esfregar.

Passada a primeira semana, com os colírios em dia, o consumo moderado não é problema. Se você tem uma ocasião marcada, me diga na consulta e eu ajusto a orientação ao seu caso.

Quando a visão assenta de verdade

Enxergar bem acontece em dias. O grau estabilizar leva semanas.

Pela minha experiência, o olho leva de quatro a seis semanas para a refração parar de mudar. É o que eu vejo em consultório e é o que a literatura sobre refração depois da facoemulsificação mostra.

É por isso que eu não receito óculos definitivos antes disso. Um óculos feito na segunda semana costuma estar errado na sexta, e o paciente paga duas vezes.

Quando retomar cada coisa

No dia seguinte

  • Caminhar e fazer exercício leve
  • Tomar banho, sem deixar o jato bater direto no olho
  • Ler, ver televisão e usar o celular

Primeiras 48 horas

  • Não abaixar a cabeça abaixo da linha da cintura
  • Não esfregar nem apertar o olho operado
  • Dormir com a proteção que eu indicar

7 a 10 dias

  • Voltar a pedalar, correr, jogar tênis e golfe
  • Retomar a atividade sexual
  • Voltar ao trabalho de escritório — em geral bem antes disso

2 semanas

  • Entrar em piscina, mar ou sauna
  • Voltar a maquiar os olhos
  • Retomar atividade com poeira, tinta ou serragem

4 a 6 semanas

  • Medir o grau e fazer os óculos definitivos
  • Encerrar o esquema de colírios
  • Programar a cirurgia do segundo olho, quando for o caso

Referência geral. Cada olho cicatriza no seu ritmo, e a minha orientação no retorno vale mais do que qualquer tabela.

Os sinais que não podem esperar o retorno

A complicação mais temida é a endoftalmite, uma infecção dentro do olho. Eu faço questão de que você saiba que ela existe — e de que saiba o tamanho dela. É rara: o registro nacional de catarata da Suécia, acompanhando 464.996 cirurgias, encontrou 135 casos — 0,029%, ou cerca de um caso a cada 3.400 cirurgias.

Vale saber de onde vem esse número. Naquele país, quase todo paciente recebe antibiótico dentro do olho ao final da cirurgia, e o próprio estudo mostrou que não usar esse antibiótico é o principal fator de risco. É a taxa de um cenário com profilaxia — e a profilaxia é justamente o que mais derruba esse risco: no estudo multicêntrico europeu da ESCRS, os casos caíram de 0,28% para 0,06%.

Ser rara não muda a conduta. A maior parte dos casos aparece nos primeiros dez dias, com mais frequência por volta do sétimo — mas pode aparecer no dia seguinte à cirurgia e pode aparecer semanas depois. Por isso eu não trabalho com data, eu trabalho com padrão. Se qualquer um destes sinais aparecer, em qualquer momento do pós-operatório, procure atendimento no mesmo dia.

Repare que o padrão é a piora depois da melhora. Desconforto que vai diminuindo faz parte. Dor que aumenta, não.

A visão embaçou de novo meses depois

Isso não é a catarata voltando — catarata operada não volta. O que acontece é a opacificação da cápsula posterior, a membrana que sustenta a lente implantada. Eu aviso todo paciente de que pode acontecer, justamente para que ninguém se assuste se acontecer.

Acomete uma minoria e costuma aparecer anos depois. Os números variam bastante conforme o material da lente implantada: 2,4% a 12,6% dos olhos em três anos e 5,8% a 19,3% em cinco.

O tratamento é uma aplicação de laser em consultório, sem corte e sem internação, com a visão voltando em pouco tempo. Vale saber que existe para não se assustar se acontecer.

O que faz a recuperação variar

Olhos com catarata muito densa, que exigem mais energia na cirurgia, tendem a desinchar mais devagar. Diabetes, glaucoma e alterações de retina mudam o acompanhamento. E o tipo de lente implantada interfere na adaptação: quem escolhe uma lente de foco estendido ou trifocal costuma levar algumas semanas para o cérebro se acostumar aos halos noturnos — assunto que eu detalho no artigo sobre qual lente escolher para a catarata.

Se você ainda está antes dessa etapa, decidindo se é hora de operar, o caminho começa em quando operar a catarata.

Sua recuperação depende do seu olho.

Na consulta eu explico o que esperar no seu caso e acompanho cada retorno até o grau estabilizar.

Agendar consulta em Brasília →

Fontes

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta oftalmológica. O tempo de recuperação varia conforme o olho, a técnica e as condições associadas, e as orientações do seu médico prevalecem sobre qualquer calendário geral.