Artigo · Catarata
Recuperação da cirurgia de catarata: o que muda em cada semana
A cirurgia de catarata dura poucos minutos e você vai para casa no mesmo dia. Depois vem a pergunta: a recuperação leva quantos dias?
Depende do que você quer voltar a fazer. Dirigir, cozinhar, treinar e trocar os óculos têm prazos diferentes. O mais longo é o grau estabilizar, que leva de quatro a seis semanas.
Abaixo está o calendário que eu passo no consultório, com a fonte de cada orientação.
As primeiras 48 horas
A cirurgia dura poucos minutos e o paciente vai para casa no mesmo dia. A visão costuma estar embaçada e a luz incomoda — isso é esperado e não significa que algo deu errado. O olho está inflamado por ter sido operado, e a córnea leva algumas horas para desinchar.
Nesse período eu peço duas coisas: não abaixar a cabeça abaixo da linha da cintura e não esfregar o olho. Vale entender o porquê, porque é o mesmo motivo por trás de quase todas as restrições desta primeira fase.
A facoemulsificação é feita por uma incisão de cerca de dois milímetros que fecha sozinha, sem pontos. O corte é feito em túnel, e é isso que o torna uma espécie de válvula: a pressão de dentro do olho encosta uma parede do túnel na outra e mantém a incisão vedada. Enquanto essa pressão fica estável, a vedação se sustenta sozinha.
O que atrapalha é a variação brusca. Abaixar a cabeça, fazer força ou levantar peso faz a pressão subir de repente sobre uma ferida que ainda não cicatrizou. Se a vedação ceder nesse pico, o olho perde líquido e a pressão despenca — e é com a pressão baixa e a incisão frouxa que líquido da superfície pode ser puxado para dentro do olho. É essa a via de contaminação que a gente quer evitar. Esfregar o olho chega ao mesmo lugar por caminho mecânico: força direta sobre uma incisão que ainda está selando.
Banho pode no dia seguinte, desde que o jato não bata direto no olho.
A primeira semana
É quando a maioria percebe a mudança. A visão melhora dia a dia, as cores voltam a parecer mais vivas e muita gente estranha o quanto o mundo estava amarelado antes. Ainda assim, o grau não está definido — o olho continua cicatrizando.
Caminhada e exercício leve eu libero já no dia seguinte. Para pedalar, correr, jogar tênis ou golfe e retomar a atividade sexual, eu peço de 7 a 10 dias. Piscina e mar, só depois de duas semanas — água parada e areia carregam contaminação, e o olho ainda está selando.
Quando posso voltar a dirigir?
Dirigir depende de a sua acuidade visual atender ao exigido para a habilitação. Muita gente está apta já na primeira semana. Quem operou um olho só pode levar mais tempo, porque a diferença de grau entre os dois olhos atrapalha a noção de profundidade.
Eu confiro na consulta de retorno e digo. Até lá, não dirija.
Posso cozinhar?
Pode, desde o primeiro dia. O que eu peço é atenção a três situações específicas da cozinha, cada uma por um motivo diferente.
Abaixar para pegar panela em armário baixo ou abrir o forno na altura do joelho repete exatamente o problema da pressão que expliquei acima. Não é o forno em si: é a posição da cabeça. Peça para alguém pegar o que está embaixo, ou agache dobrando os joelhos e mantendo a cabeça erguida.
O calor e o vapor pesam por outra razão. Vapor quente na cara faz o olho lacrimejar e dá vontade de esfregar — e esfregar é o risco de verdade, não a temperatura. Some a isso que o olho operado fica mais seco por causa dos colírios, o que aumenta o incômodo. Abrir a tampa de uma panela de pressão ou encarar o forno aberto de perto são as duas situações que eu evitaria na primeira semana.
Fritura junta as duas coisas e acrescenta o respingo. Um respingo de óleo num olho recém-operado exige atendimento imediato. Deixe para depois da primeira semana ou peça ajuda.
E lavar o cabelo?
Lavar o cabelo tem dois problemas ao mesmo tempo, e os dois têm solução.
O primeiro é a posição. Lavar inclinado para a frente, sobre a pia ou no box olhando para o ralo, deixa a cabeça abaixo do peito — de novo a pressão subindo contra uma incisão sem pontos. O segundo é o xampu. Espuma e água escorrendo para dentro do olho irritam a superfície e, na primeira semana, qualquer coisa que entra no olho é uma via de contaminação enquanto a incisão termina de fechar.
A solução resolve os dois de uma vez: lavar inclinando a cabeça para trás, como no salão, com alguém ajudando ou com o chuveirinho. A água corre para longe do rosto e a cabeça fica acima do peito. Nos primeiros dias, isso é o suficiente.
Posso beber?
Não existe uma proibição oftalmológica ao consumo moderado de álcool depois da cirurgia de catarata. O olho operado não reage ao álcool de um jeito particular. Mas existem três motivos concretos para segurar nos primeiros dias.
No dia da cirurgia, não. Se você recebeu sedação, o álcool soma efeito com o que ainda está circulando. Esse é o único ponto em que eu sou categórica.
Os colírios têm horário. O esquema pós-operatório inclui antibiótico e anti-inflamatório em intervalos fixos por cerca de quatro semanas, e a inflamação controlada é o que define o resultado. Uma noite que atrapalha o sono costuma atrapalhar a dose da manhã seguinte, e é essa falha que me preocupa — não a taça.
Álcool desidrata. O olho recém-operado já está mais seco pelo próprio procedimento e pelos colírios. Beber acentua a secura, e olho seco arde e coça. Você já sabe onde isso termina: na vontade de esfregar.
Passada a primeira semana, com os colírios em dia, o consumo moderado não é problema. Se você tem uma ocasião marcada, me diga na consulta e eu ajusto a orientação ao seu caso.
Quando a visão assenta de verdade
Enxergar bem acontece em dias. O grau estabilizar leva semanas.
Pela minha experiência, o olho leva de quatro a seis semanas para a refração parar de mudar. É o que eu vejo em consultório e é o que a literatura sobre refração depois da facoemulsificação mostra.
É por isso que eu não receito óculos definitivos antes disso. Um óculos feito na segunda semana costuma estar errado na sexta, e o paciente paga duas vezes.