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Artigo · Catarata

Catarata em Brasília: o que os números mostram e quando é hora de operar

Dra. Luiza Mello · Oftalmologista·CRM-DF 24734

Catarata virou sinônimo de cirurgia, e nem sempre é assim. Boa parte de quem chega ao consultório preocupado com a visão embaçada não precisa operar naquele momento. Precisa, antes, entender o que está acontecendo. É disso que este texto trata: o que a catarata é, o que dizem os números e como reconhecer a hora certa, que existe, mas quase nunca é "agora mesmo".

O que é, e por que acontece

A catarata é a perda de transparência do cristalino, a lente natural que fica atrás da íris. Conforme ele vai ficando opaco, a luz passa com mais dificuldade e a imagem chega embaçada. Na maioria das vezes, isso acompanha o envelhecimento: é um processo lento e esperado. Diabetes, uso prolongado de colírios com corticoide, traumas no olho e muito sol sem proteção podem adiantar o quadro, mas a idade continua sendo a causa principal.

Catarata em dados

A principal causa de cegueira do mundo — e que, um dia, chega a quase todos.

Por ser parte do envelhecimento, a catarata é praticamente uma questão de tempo: mais cedo ou mais tarde, quase todo mundo desenvolve algum grau. A boa notícia é que, na imensa maioria dos casos, a visão pode ser devolvida com uma cirurgia.

94 mi

de pessoas no mundo convivem com perda de visão por catarata

OMS

~45%

de toda a cegueira do planeta é causada por catarata

Global Burden of Disease

~49%

dos casos de cegueira no Brasil têm a catarata por trás

Conselho Brasileiro de Oftalmologia

as cirurgias pelo SUS dobraram em dez anos (302 mil → 601 mil)

Ministério da Saúde

Como a catarata muda a visão — arraste para comparar

Vista de Brasília com visão nítida — simulação após tratamento de catarata
Vista de Brasília simulando a visão embaçada de quem tem catarata
Sem catarata
Catarata moderada
← Arraste para simular a progressão →opacidade 50%

Prevalência por faixa etária — Brasil

38%

das pessoas entre 60–69 anos apresentam algum grau de catarata.

Fonte: CBO / OMS — estimativas populacionais

Ter catarata não é o mesmo que operar catarata

Esse é o ponto que mais faço questão de deixar claro. Como a catarata faz parte do envelhecimento, em algum grau quase todo mundo vai desenvolvê-la, e isso não é sinônimo de cirurgia marcada. Muita gente convive anos com uma catarata inicial que mal interfere no dia a dia. Nesses casos, o melhor tratamento costuma ser o mais simples: acompanhar, com retornos periódicos, e operar apenas se e quando fizer diferença real na sua vida.

Os sinais que costumam aparecer primeiro

No início a catarata é silenciosa e indolor, porque evolui devagar. As queixas mais comuns são uma visão que vai embaçando aos poucos, como uma película diante dos olhos; trocas frequentes do grau dos óculos; cores que parecem mais lavadas; e sensibilidade à luz, com halos em volta das lâmpadas. Em Brasília, com o céu aberto e a luz forte, costumo ouvir essa queixa primeiro na direção ao entardecer: o motorista vê os faróis espalhando e perde a confiança para dirigir à noite.

Quando operar (e por que "esperar amadurecer" caiu por terra)

Durante décadas se ensinou que a catarata precisava "amadurecer" antes da cirurgia. Hoje sabemos que não. As diretrizes atuais, como o Cataract in the Adult Eye da Academia Americana de Oftalmologia, orientam indicar a cirurgia pelo quanto a catarata compromete a sua função visual e a sua rotina, não pelo estágio dela na imagem. O gatilho é a sua vida, não um ponto fixo de maturação.

Por isso, na consulta, a pergunta que mais importa não é "como está o exame?", e sim "o que você já não consegue fazer bem?". Duas pessoas com cataratas idênticas na imagem podem ter condutas diferentes, porque o que atrapalha cada uma é diferente. Os exames de medida e imagem do olho (biometria, topografia da córnea e, quando preciso, a OCT) entram para confirmar a segurança, calcular a lente com precisão e revelar o que mais existe ali além da catarata.

Evito os dois extremos. Operar uma catarata que ainda quase não incomoda raramente compensa o risco de qualquer cirurgia. Deixar passar tempo demais também cobra seu preço: a catarata muito avançada endurece o cristalino e torna o procedimento mais trabalhoso e a recuperação mais lenta. O bom senso fica no meio do caminho.

O tratamento, e a escolha da lente

Não há colírio nem óculos que reverta a catarata. O tratamento é cirúrgico: o cristalino opaco sai e, no lugar, entra uma lente intraocular que fica para sempre. É um dos procedimentos mais comuns e mais estudados da medicina. A lente escolhida muda bastante o resultado: algumas focam bem em uma distância, outras dividem o foco entre longe, meio e perto. Não existe uma "melhor lente" no abstrato. Existe a que combina com o seu olho e com a sua rotina, e essa decisão se toma na consulta, depois que os exames mostram o que é viável com segurança.

Na dúvida, avalie — não opere por medo

Visão embaçada nem sempre é catarata, e catarata nem sempre é de operar agora. O que não compensa é seguir na dúvida. Uma avaliação esclarece o diagnóstico e mostra se a conduta é operar ou acompanhar. Se você está em Brasília e notou a visão mudando, vale marcar uma consulta. Às vezes a resposta é a cirurgia; muitas vezes é só seguir acompanhando, com retornos. Em qualquer caso, você sai entendendo exatamente o que está acontecendo com a sua visão, e quando e como agir.

Percebeu a visão mudando?

Uma avaliação esclarece o diagnóstico e mostra se é hora de operar ou de acompanhar.

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Fontes

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta oftalmológica. O diagnóstico e a indicação de tratamento dependem de avaliação médica individual.