Ter catarata não é o mesmo que operar catarata
Esse é o ponto que mais faço questão de deixar claro. Como a catarata faz parte do envelhecimento, em algum grau quase todo mundo vai desenvolvê-la, e isso não é sinônimo de cirurgia marcada. Muita gente convive anos com uma catarata inicial que mal interfere no dia a dia. Nesses casos, o melhor tratamento costuma ser o mais simples: acompanhar, com retornos periódicos, e operar apenas se e quando fizer diferença real na sua vida.
Os sinais que costumam aparecer primeiro
No início a catarata é silenciosa e indolor, porque evolui devagar. As queixas mais comuns são uma visão que vai embaçando aos poucos, como uma película diante dos olhos; trocas frequentes do grau dos óculos; cores que parecem mais lavadas; e sensibilidade à luz, com halos em volta das lâmpadas. Em Brasília, com o céu aberto e a luz forte, costumo ouvir essa queixa primeiro na direção ao entardecer: o motorista vê os faróis espalhando e perde a confiança para dirigir à noite.
Quando operar (e por que "esperar amadurecer" caiu por terra)
Durante décadas se ensinou que a catarata precisava "amadurecer" antes da cirurgia. Hoje sabemos que não. As diretrizes atuais, como o Cataract in the Adult Eye da Academia Americana de Oftalmologia, orientam indicar a cirurgia pelo quanto a catarata compromete a sua função visual e a sua rotina, não pelo estágio dela na imagem. O gatilho é a sua vida, não um ponto fixo de maturação.
Por isso, na consulta, a pergunta que mais importa não é "como está o exame?", e sim "o que você já não consegue fazer bem?". Duas pessoas com cataratas idênticas na imagem podem ter condutas diferentes, porque o que atrapalha cada uma é diferente. Os exames de medida e imagem do olho (biometria, topografia da córnea e, quando preciso, a OCT) entram para confirmar a segurança, calcular a lente com precisão e revelar o que mais existe ali além da catarata.
Evito os dois extremos. Operar uma catarata que ainda quase não incomoda raramente compensa o risco de qualquer cirurgia. Deixar passar tempo demais também cobra seu preço: a catarata muito avançada endurece o cristalino e torna o procedimento mais trabalhoso e a recuperação mais lenta. O bom senso fica no meio do caminho.
O tratamento, e a escolha da lente
Não há colírio nem óculos que reverta a catarata. O tratamento é cirúrgico: o cristalino opaco sai e, no lugar, entra uma lente intraocular que fica para sempre. É um dos procedimentos mais comuns e mais estudados da medicina. A lente escolhida muda bastante o resultado: algumas focam bem em uma distância, outras dividem o foco entre longe, meio e perto. Não existe uma "melhor lente" no abstrato. Existe a que combina com o seu olho e com a sua rotina, e essa decisão se toma na consulta, depois que os exames mostram o que é viável com segurança.
Na dúvida, avalie — não opere por medo
Visão embaçada nem sempre é catarata, e catarata nem sempre é de operar agora. O que não compensa é seguir na dúvida. Uma avaliação esclarece o diagnóstico e mostra se a conduta é operar ou acompanhar. Se você está em Brasília e notou a visão mudando, vale marcar uma consulta. Às vezes a resposta é a cirurgia; muitas vezes é só seguir acompanhando, com retornos. Em qualquer caso, você sai entendendo exatamente o que está acontecendo com a sua visão, e quando e como agir.
Percebeu a visão mudando?
Uma avaliação esclarece o diagnóstico e mostra se é hora de operar ou de acompanhar.
Agendar avaliação no WhatsApp →